Domingo, 4 de Fevereiro de 2007
Os falsos argumentos do “Não”

Aprovamos a despenalização e entra “pela janela” a liberalização — na prática, o aborto está já liberalizado há décadas: quem é que não consegue fazer um aborto, ilegal e perigoso, mas “a pedido”, no Portugal de hoje? A despenalização sempre trará alguma ordem: por agora, o aborto é praticado por todo o lado e sem qualquer prazo limite.

Vai aumentar o aborto clandestino — ninguém pode afirmar tal coisa, uma vez que nem sabemos ao certo quantos abortos clandestinos se praticam hoje em dia. Mesmo nos hospitais, confundem-se abortos espontâneos com os provocados, as estatísticas aproximam-se da fantasia. E importar números estrangeiros faz tanto sentido como o argumento provinciano do “já todos aprovaram, só faltamos nós”.

Se o “Sim” ganhar, continuaremos a ver julgamentos: das mulheres que abortem depois das 10 semanas — claro: a partir do momento em que uma mulher tem 70 dias para abortar em segurança e legalidade, não há desculpa para o fazer apenas depois. Com a liberdade, tem de vir responsabilidade.

Nenhum cristão pode votar neste pecado — só em 1869 é que a Igreja deixou de tolerar oficialmente os abortos no primeiro trimestre de gravidez. A postura agora inflexível da Igreja Católica reflecte apenas e tão somente a vontade de alguns senhores de sotaina.

Abortar é liquidar uma vida humana — Um embrião tem vida, obviamente. Há décadas e décadas que ninguém o nega. Mas às 10 semanas não possui ainda a estrutura neurológica onde reside a nossa consciência. É um ser, mas ainda não humano. Niguém aponta um só argumento científico, para lá do “olha que impressionante, está ali o coração”, para contrariar isto.

Não queremos os nossos impostos aplicados na execução de abortos — pura e simplesmente, não é isso que se vai votar no dia 11.

Melhor seria alterar a lei de modo a não haver mais julgamentos e pronto — o cúmulo da hipocrisia. Perpetuar a clandestinidade, o perigo, as humilhações para as mulheres apanhadas. Mas sem escândalos: uma multa discreta e já está.

Já mulher alguma é presa por abortar — hoje. E se amanhã tivermos um talibã da Opus Dei como ministro da Justiça?

As mulheres vão abortar por capricho — o argumento misógino de quem vê no mulherio uma casta de devassas desmioladas, incapazes de sentimentos ou de angústia ante uma decisão deste calibre.

A nossa lei já é igual à espanhola; para quê mudar? — o nosso Código Penal exige ameaça de “grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica” da grávida; o artigo espanhol menciona apenas “grave peligro”. Por cá, cada caso é analisado por “comissões técnicas de certificação”, com “três ou cinco médicos como membros efectivos e dois suplentes”, enquanto que em Espanha basta um atestado de um clínico.

Devíamos antes apostar na educação sexual e reprodutiva depois dos lindos discursos na noite da vitória no último referendo, o melhor que os partidários do “Não” conseguiram produzir foi uma secretária de Estado da Educação que afirmou que, se dependesse dela, a educação sexual seria banida das escolas. Agora, temos D. José Policarpo afirmar que esta, para ser “verdadeira”, teria de ser ministrada na “perspectiva da castidade”. Estamos conversados quanto a tal paleio, portanto.



publicado por Luis Rainha às 19:40
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4 comentários:
De João Avelar a 4 de Fevereiro de 2007 às 22:56
Então imagine que a sua mãe tinha decidido praticar o aborto em qualquer local dos que defende, você não tinha hipótese sequer de hoje ter opinião.


De João Avelar a 4 de Fevereiro de 2007 às 22:57
Então imagine que a sua mãe tinha decidido praticar o aborto em qualquer local dos que defende, você não tinha hipótese sequer de hoje ter opinião.


De Luis Euripo a 5 de Fevereiro de 2007 às 23:20
Quem vive de argumentos como o do Sr. João Avelar, casual companheiro de comentário, revela um grave trauma ocorrido provavelmente até às 10 semanas da sua vida de feto no útero materno, na angústia perene de a sua própria mãe abortar.


De Bernardo Motta a 8 de Fevereiro de 2007 às 21:49
Luís,

Tiveste oportunidade para dar uma olhada ao meu argumentário?
És homem para refutar algumas das coisas que eu escrevinhei?

«A postura agora inflexível da Igreja Católica reflecte apenas e tão somente a vontade de alguns senhores de sotaina.»

Já vi que manténs um inegável talento para frases bonitas e contundentes, tanto quanto são falsas!
;)

Vá: pega lá em argumentos do "não" escritos com cuidado, e diz de tua justiça. Estou curioso...

Um abraço,


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