Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007
Antetempo (3)


— Vá, levante-se, Carlos Fernando. Ainda há convidados na Cidadela. Que diriam eles se vissem o seu futuro Rei assim de rojo pelo chão, a chorar como uma criança? Não lhe tinha dito para não olhar muito fixamente aquela maldita claridade eléctrica?
— Minha mãe: se visse o que eu vi! Havia gritos e fumo de pólvora, gente a fugir esbaforida, gritos de gelar o sangue e... eu estava morto, morto!
— Por tudo o que é sagrado, pare de gritar. Sente-se aqui e conte tudo à sua mãe; mas sotto voce. O que viu afinal?
— Passeava pela parada, entre os candeeiros eléctricos. Divertia-me a observar como o jogo das luzes por vezes me deixava sem sombra. E dei comigo num outro lugar, ou talvez num outro tempo: mesmo ao lado da estátua de D. José, numa carruagem a avançar entre povo que aclamava e acenava feliz. Um homem de barbas negras, com cara de meter medo, avançou para nós e tirou uma carabina de baixo do seu gabão. E começou uma fuzilaria terrível, como numa batida: todos disparavam sobre nós. Comigo, estava um jovem que — soube-o então — eu amava mais do que a minha própria vida. E ele ficou em pé, enfrentando o fogo infame, de pistola em riste. A metralha chovia, e nós voávamos pelas calçadas de Lisboa, os cavalos de freio nos dentes. Logo o rapaz tombou sobre mim sem um ai, a fonte desfeita espirrando sangue às golfadas. O meu peito fora varado por duas, três balas; soube-me quase morto e só queria apressar a queda na escuridão, não ter de ver a vida a sair daquele corpo em uniforme de gala, as suas melenas louras empapadas de vermelho, os olhos cada vez mais enublados, a pele tão branca, a mão que se erguia para a minha; e eu sem a poder mover. Só queria morrer depressa, cerrar as pálpebras, partir antes dele. Mas quem era aquele jovem mártir, minha mãe? E que Inferno é este onde caí agora?
— Carlos, meu pobre filho, esqueça o que julga ter visto.
— Mas como, como?
— Olhou por demasiado tempo para aquelas velas malditas. E talvez tenha tomado algum ponche a mais, quiçá. Tudo não passou de um sonho, fraqueza de um cérebro ainda jovem, cansado por tantas emoções. Um rapaz inteligente e imaginativo, a passear sozinho numa noite de Lua cheia, nesta fortaleza carregada de História... Como não dar largas à fantasia?
— Mas nada foi só ilusão. Sei o que vi, e ainda sinto o gosto acre da pólvora e do sangue!
— Vou falar com o senhor seu pai. Os candeeiros vão sair daqui amanhã, sem delongas. Não têm lugar nesta terra. Ainda não. O tempo deles vai chegar; ou talvez já tenha chegado nos boulevards de Paris. Mas aqui, neste Reino de bruxas, crianças famélicas, crendices sem fim? Mil vezes não. Muito ainda nos falta tanto para o século deles.

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publicado por Luis Rainha às 12:25
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