Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007
Da cegueira ao ódio
O André Abrantes Amaral já tinha dado umas voltas em torno do tema. Mas creio ter sido esta a primeira vez que ele deu corpo de letra, preto no branco, aos seus fantasmas: «vou ser claro: Ser membro do Partido Comunista é tão grave como ser membro de um partido ou organização nazi.»
Para simplificar, vou assumir que "grave", para o nosso amigo insurgente, quer dizer mais ou menos o mesmo que para a maioria dos dicionários. Portanto, ser militante do PCP será tão mau, em termos civilizacionais, de carácter e de cumplicidade com atrocidades várias, como ser membro das organizações nazis que andam por aí.
Para AAA, existe um poderoso Pecado Original a macular a alma de todos os que hoje fazem parte activa do PCP: o da cumplicidade com os crimes de Estaline e com um projecto que desaguou no totalitarismo. E esta mancha é mais desagradável e pestilenta do que a dos cúmplices do amigo Adolf, julga ele.
Ora é bom deixar claras algumas coisas: a esmagadora maioria dos militantes actuais do nosso bisonho Partido Comunista será culpada do pecado da ignorância voluntária. E pouco mais. Não vemos militantes destacados daquele partido a exigir reedições de gulags, a deportação para a tundra gelada dos capitalistas, purgas quinzenais, o extermínio do kulaks, etc. Vemos sim alguns idiotas com responsabilidades a clamar no “Avante!” que a queda da URSS foi consequência de um ataque capitalista à «mais brilhante conquista da história da humanidade». Isto é cegueira selectiva; não crime.
O bom AAA faz de conta (isto para não o chamar também “ignorante”) que não sabe o que são hoje os grupúsculos nazis em Portugal. Gente com fóruns onde se escrevem, para gáudio da boçal plateia, coisas como: «é a primeira vez que vejo um macaco maquilhado»; «Os pretos são mesmo feios, como é possível haver lá "misses"?!!»; «uma rapariga branca acompanhada por um preto, dar à luz uma baratita...». Que segue líderes capazes de proclamar «quero vê-los um dia no Julgamento por crimes contra a Humanidade, crimes estes contra a nossa raça e povo, e vou adorar vê-los pendurados a bailoçar por uma corda no Terreiro do Paço» e «com armas, e não são soqueiras, nem bastões de baseball que nos vão ajudar quando o inimigo sacar das armas de fogo que dispõe, aconselho os nacionalistas a comprarem armas (...) se o vosso registo criminal não o permitir, peçam em nome da vossa mulher, namorada, mãe ou pai... há sempre uma solução para tudo.»
Trata-se de malta que celebra os aniversários de Hitler, que julga viver num mundo secretamente comandado por judeus, que se quer ver livre de todos os imigrantes um pouco mais escuros, que acha que a Solução Final não foi final qb, que organiza manifestações (perfeitamente legais) seguidas de concertos de uma banda de “racial hatecore” chamada “Ódio”. Etc, etc.

AAA é tão voluntariamente cego como os comunistas que continuam saudosos da loucura burocratizada da URSS: para ele, é igual o militante comunista que se agarra ao seu sonho caduco de um mundo mais igualitário e o nazi que prega o ódio racial, a violência, o preconceito animalesco.
Mas olhe que há um mundo a separá-los caro AAA: uma coisa é fechar os olhos a crimes praticados há décadas, outra bem diversa é lutar para os repetir o mais depressa possível.



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publicado por Luis Rainha às 16:51
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2 comentários:
De JMC a 24 de Fevereiro de 2007 às 16:52
Permita-me discordar da sua concepção de que o comunismo foi um “projecto que desaguou no totalitarismo”. O comunismo é um projecto que desagua no totalitarismo.
Detentores da verdade revelada, adeptos do Estado patrão único, o que impede os comunistas de reeditar gulags, deportações dos capitalistas, purgas quinzenais, o extermínio de inimigos, etc. ? O facto de não andarem por aí a proclamá-lo? No tempo de Estaline também não o proclamavam, mas faziam-no! E, no essencial, fizeram-no por todo o lado onde chegaram ao poder.
O que distingue o nazismo do comunismo é essencialmente o romantismo dos fins proclamados (nunca alcançados); em tudo o resto, distinguem-se apenas pelos alvos. Ódio racial/ódio de classe; messianismo ariano/messianismo proletário; expansionismo regional/expansionismo mundial; etc.
Ficando-se pela comparação de sujeitos, comparando uns imbecis de pequenas seitas com respeitáveis membros do PCP, esquece o essencial: a comparação das ideologias e das práticas de poder.
O totalitarismo é umas das formas de exercício do poder, a única possível para o exercício do poder absoluto. O comunismo só pode existir pelo recurso ao poder absoluto; é intrinsecamente uma ideologia inimiga da liberdade; a única liberdade que concebe é a da obediência.
O “bisonho” PCP luta pelo poder; não renega o passado (o seu e o do comunismo soviético) nem a ideologia messiânica classista nem a violência revolucionária; quotidianamente, dissimulado pela denúncia das injustiças e das desigualdades, prega o ódio de classe, a estimulação contínua do conflito.
Os grupúsculos de imbecis nazis não passam de pequenos bandos de arruaceiros (o que não impede de estarmos atentos); pretendendo ser nazis, são meros travestis.
Os comunistas são tão lunáticos quanto os nazistas; estão bem melhor organizados e desfrutam incomparavelmente de maior influência social e política.
O facto da maioria dos militantes comunistas serem analfabetos políticos não é factor desculpabilizante, antes pelo contrário. A ignorância é terreno fértil para a germinação da intolerância e da violência.
A displicência com que encaramos o comunismo deriva da progressiva perda de influência social e política do PCP; mas deveríamos repensar a influência que a constante prédica do ódio de classe tem no atraso do país. É o atraso e não o desenvolvimento que permite a existência de partidos comunistas…


De k a 25 de Fevereiro de 2007 às 08:41
A extrema-direita faz-se valer de uma dupla chantagem. Explora a potencial reserva de preconceitos residente em cada indivíduo.Depois, subverte a lógica do enquadramento democrático dos partidos comunistas.A igreja católica também tem hoje o seu lugar social apesar da nojice que é a sua história. A extrema-direita, lá está, tem o cuidado de não reclamar a ilegalização dos PCs e da extrema-esquerda porque tal significaria reconhecer legitimidade a sua própria marginalização. Ela não diz «ilegalizem-nos também a eles», ela diz «legalizem-nos também a nós». A nuance não é inocente. Pudera. Ela diz que se ensina o multiculturalismo e esquerdices nas escolas. Ela não diz que os jovens não aprendem puto sobre o 25 de Abril e sobre o Estado Novo nas escolas. Ela quer censurar os livros escolares e das bibliotecas municipais, nem que o faça á força de tacos de basebol. Ela diz que me quer defender de alienígenas, mas eu nada lhe pedi. Não pedi guarda-costas culturais, civilizacionais, e muito menos raciais. Ela quer matar. Matar. Matar. Quer matar negros, quer matar indianos, quer matar árabes, quer matar orientais, quer matar judeus, quer matar sul-americanos, quer matar ciganos, quer matar gays, quer matar lésbicas, quer matar diminuídos mentais, quer matar deficientes físicos, quer matar seropositivos, quer matar toxicodependentes, quer matar, quer matar. Quer eliminar tudo o que não cheire ao seu ideal idiota de salubridade. Não reconhece os seus crimes, orgulha-se deles diariamente, e promete reactivá-los a todo o instante. Não lhe reconheço lugar numa democracia. Ela traz sangue no focinho.


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