Sábado, 24 de Fevereiro de 2007
A luz negra de João Carlos Espada


Há pensadores que são como faróis sobre falésias escuras e tempestuosas: fornecem preciosas sinalizações a quem se debate contra as trevas. As rotas que indicam podem não ser as únicas, mas são sempre certeza reconfortante de que ali já esteve um intelecto poderoso a explorar e cartografar os baixios da nossa ignorância.
E há pensadores de um tipo diverso. Onde poderia brilhar a clareza, lançam a névoa; onde fazem falta conceitos cortantes e análises de gume afiado, depositam toneladas de escórias para enterrar as verdadeiras questões. Usam, à laia de cartas de marear, listas de nomes e de lugares-comuns, tratando qualquer vestígio de complexidade com o sorriso trocista do néscio que tudo combate com as mesmas receitas simplistas. Intelectuais assim são náufragos a fazer por adensar a escuridão em seu redor, quiçá na esperança — nunca infundada, aliás — de conseguir atrair ao soçobro acólitos na desdita.

João Carlos Espada é o exemplo acabado do “pensador” deste segundo e funesto grupo. Depois de anos a adorar o camarada Estaline, anda hoje com nomes de novas divindades sempre na ponta da língua, sobretudo académicos que deve ter vislumbrado ao longe numa qualquer bicha do refeitório de Oxford, como o omnipresente “sir Karl” (Popper, para os não-íntimos). Este teísmo polimórfico não o impede, antes pelo contrário, de manifestar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Quase sempre com resultados risíveis.
Hoje, na sua coluna no “Expresso”, vem mais uma vez avisar-nos das ameaças do “novo conformismo dogmático”, nome que ele dá a tudo que não entende ou com que não concorda no mundo de hoje. O que é muito. Desta vez, vem queixar-se do tratamento diferenciado que a segurança social britânica dá às famílias mono e biparentais. Indigna-o o facto de 60% das famílias monoparentais receberem mais de metade do seu rendimento do Estado, contra apenas 9% das famílias supostamente normais. E, escândalo, aquelas “não param de crescer (?) e ninguém se atreve a dizer nada sobe isso”. Ninguém excepto, claro está, o corajoso Espada. Depois, lança-se num encómio às virtudes da normalidade, com os seus positivos reflexos no futuro das crianças.
Isto é tomar árvore pela floresta, a nuvem por Juno, efeitos por causas, epifenómenos por determinantes. Nem passa por aquela iluminada moleirinha que, para começar, a pobreza possa logo ser um dos factores importantes a contribuir para a possibilidade de divórcio de um casal. Nem que a dependência da segurança social é mais natural quando apenas um dos progenitores (por norma a mulher) contribui para o rendimento familiar; sobretudo tendo em conta que nos EUA, por exemplo, cerca de metade dos pais divorciados foge ao pagamento da pensão de alimentos judicialmente decidida. E, mergulhadas na pobreza, como poderiam essas crianças evitar uma infinidade de desafios e problemas suplementares?

Mas a realidade nunca abranda o Espada: “Apesar disso, os subsídios estatais, alegadamente ‘neutros’, continuam a premiar os comportamentos mais negativos para as crianças”, dando mais dinheiro aos lares monoparentais. Ele não consegue entender que à segurança social não cabe ser neutra (e nunca no sentido conspirativo que ele tem na cabecita): cabe-lhe sim apoiar mais os mais carenciados. Se há tantas famílias monoparentais em plena pobreza, porque não deveriam receber apoios suplementares? Só que o bom Espada entende os subsídios aos pobres como “prémios”, e mal entregues, por sinal. Para ele, só uma política darwiniana de deixar essa maltosa toda a morrer à fome é que seria moralmente sã.
Ao longo de todo o artigo, ele fala das famílias monoparentais como se fossem uma moda; como se uma mulher decidisse cair na pobreza porque é cool educar sozinha os filhos. Espada “atreve-se” a falar do tema. Não tarda nada, atrever-se-á a pedir que alguém faça mesmo alguma coisa, proibindo o divórcio, obrigando casais desavindos a "períodos de reflexão" de décadas, retirando a prole às divorciadas em dificuldades ou qualquer outra medida musculada que acabe com esta pouca-vergonha.


PS: Teria bastado à criatura gastar alguns minutos para dar com estudos pertinentes e reveladores, como este, publicado no International Journal of Sociology. Como brinde, contém ainda uma informação surpreendente: é possível que a existência de filhos actue como uma pressão no sentido do divórcio, ao contrário do que o senso comum imaginaria. Mas isto já é outra conversa.




publicado por Luis Rainha às 22:17
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