Quarta-feira, 7 de Março de 2007
Fonte de desgostos


Primeiro foi o esquálido “Tideland” e a correspondente desilusão com Terry Gilliam, cuja carreira parece cada vez mais azarada. Depois, foi a vez de um outro realizador cujo trabalho até à data me tinha entusiasmado: Darren Aronofsky, autor dos mui recomendáveis “Pi” e “Requiem for a Dream”.
Indo depressa ao assunto, “The Fountain”, o seu filme de 2006, acabado após 6 anos de uma gestação complexa que envolveu o abandono do projecto por parte de Brad Pitt e outras vicissitudes, é uma porcaria.
A coisa anda em redor de um cientista, o dr. Tom Creo (Hugh Jackman), que busca afanosamente uma cura para o cancro que vai corroendo o cérebro da sua bela mulher (na realidade, a cônjuge de Aronofsky, Rachel Weisz). Esta entretém-se a escrever uma aventura histórica que envolve exploradores espanhóis no Novo Mundo em busca da Árvore da Vida; o capitão destes, claro está, é o mesmíssimo Tom, agora “Tomás”, a que Hugh Jackman também dá o corpo e a cara de pau.
Mas o caldo metafísico entorna-se de vez quando nos aparece o bom do Tomas/ Dr. Tom/ Tommy disfarçado de Gandhi, em posição de lótus e empenhado num fulgurante número de levitação. O homem anda encerrado numa gigantesca bola de vidro, com uma árvore, claro está, rumando aos confins do espaço sideral.
Os três planos de realidade vão evoluindo em contraponto até à morte da esposa amada do sofrido cientista. Este trata de plantar uma semente da árvore miraculosa sobre a campa da senhora, presumindo-se que a árvore que acompanhava a sua encarnação futurista tenha sido fruto desse belo acto. Depois, vemos o astronauta-rapaz-bolha quando ele por fim chega a uma estrela venerada pelos antigo Maias, mesmo a tempo de a ver rebentar; não me perguntem o que lá foi ele fazer ou como cabia ali a enorme árvore.
Confusos? Não é para menos. “The Fountain” pretende ser uma intrincada meditação sobre o desejo de imortalidade e a forma sublime com que o Amor consegue ultrapassar todos os entraves, mesmo o derradeiro: a Morte. Assim uma espécie de “2001” em versão neo-hippie. Mas nada funciona como devia, com a notória excepção dos belissimos (e económicos) efeitos especiais e de uma contida mise-en-scéne. A reflexão sobre a espiritualidade é risível; os actores limitam-se a esgares de perene sofrimento; o final, um clímax sinfónico de piroseira new age, é quase acabrunhante; o entretecer de fios das diferentes narrativas é previsível, escasso e superficial.
Não sei se o filme já estreou por cá. Mas façam-se um favor e tratem de o perder.



tags:

publicado por Luis Rainha às 12:46
link do post | comentar | favorito
|

Sustos recentes

Inté

Adivinha

O pirata do olho de vídeo

Mas será que a senhora es...

Inês Pedrosa perde o pé

As coisas são como são

UE PRETENTE IMPOR I2O Grs...

Manicomics

Some of my favourite thin...

A noite do morto vivo 31

É o povo, senhores (2)

A fórmula perdida

É o povo, senhores...

Um engenheiro debaixo de ...

O "nosso ilustre candidat...

Momento Espada da semana

0,31 da Armada

Great minds think nearly ...

Living in the past

Pronto, está bem, junto-m...

Pela Comarca de Guantanam...

Escondam lá a roupa suja,...

Apesar das ameaças de vet...

Publicidade dadá (3)

Publicidade dadá (2)

Literatura Socrática

Luis, pode falar-se de um...

Publicidade Dadá

Primeiro pensamento da be...

Como vai mal o humor em P...

O gap que nos faltava pre...

A vida social dos nossos ...

Manicomics

O título mais cómico do a...

CARICATURA#7

Sexware

Um novo sentido para "dan...

Espada e as "surpresas am...

Brinde da semana

Cocteau Twins — Wax and Wane
Ectoplasmas vários
Artiste du Jour
Antony Gormley
tags

todas as tags

pesquisar
 
subscrever feeds