Quinta-feira, 8 de Março de 2007
A propósito de um ensaio de Jean Baudrillard


Baudrillard desde sempre centrou a sua obra na sociedade de consumo. A sua herança marxista enformou as suas primeiras obras, como “O Sistema dos Objectos”, escrito em 1968, no rescaldo das revoltas estudantis francesas, que tiveram um importante epicentro na universidade de Nanterre, onde ele leccionava. Esta obra inaugural analisava  o mundo do pós-guerra e a sua transição de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo. Mas a clivagem em relação às análises de Marx eram já visíveis: enquanto que este postulava que todos os objectos possuem um “valor de uso”, pervertido pelo capitalismo até passar a um sistema onde impera o “valor de troca” ou de mercado, Baudrillard acrescentava a dimensão do “valor simbólico”, que quantificava o seu status social e realçava o “gosto” necessário à sua ostentação: se um relógio suíço preserva a sua função utilitária e o seu valor resgatável, é hoje acima de tudo um indicador de ascensão social, de pertença a uma casta de consumidores ricos, esclarecidos e socialmente distintos das massas. Este livro, em conjunto com “La société de consommation” (1970),  examina os sistemas e dispositivos psicológicos que governam o consumo nas sociedades capitalistas: o domínio do significado sobre a utilidade, a aquisição de objectos como meio de entrada em determinados grupos, não como satisfação de necessidades práticas e inteiramente conscientes; o consumidor apenas sente a ilusão de preencher carências reais.
A separação de Marx ocorreu ainda cedo. Afinal, este sempre defendeu que  a necessidade, a escassez e a economia de trocas eram entidades determinantes e bem reais. No início da década de 70, na obra como “Le miroir de la production”, Baudrillard declara que o signo prevalece sobre toda a actividade económica e que as ligações entre o referente e o signo foram estilhaçadas de forma definitiva. Neste mundo arbitrário e náufrago de qualquer “realidade” natural, as permutações dos signos, das imagens e de outras formas de simulacro ocorrem de forma caótica, com inteira liberdade dos seus significados e referentes antigos. É o universo da hiperrealidade, onde as quantidades culturais e sociais assumem importâncias determinantes próprias, independentes das suas antigas  ligações a um mundo mais simples, onde os objectos e as práticas culturais tendiam a ser apenas o que aparentavam ser. No entanto, esta dança caótica de símbolos e simulacros obedece aos ditames de uma espécie de DNA maligno que leva à sua replicação infinita e à sua instalação no centro das nossas vidas, determinando que esta se passe a reger pelos mecanismos da “consumação”, a variedade supremamente solipsista do consumo, auto-centrada,  auto-suficiente, desligada das necessidades vitais do indivíduo.
Desta forma, o Jean Baudrillard herdeiro de uma tradição hegeliana e de crítica marxista, passa a apontar como dado crucial dos nossos tempos o divórcio entre o mundo “real” e o “mundo simulado”; a sociedade de consumo seria assim palco de um fenómeno de crescente alienação, operada sobretudo pelas diversas formas de conteúdos audiovisuais. A potente deformação que  a galáxia do audiovisual tende a induzir, criando um irremediável divórcio entre e o “real” e o “mundo simulado”, ideias gizadas no seu livro “O Sistema dos Objectos”, surge dramaticamente fixada no ensaio dado à estampa em 1985, “O Êxtase da Comunicação” (in “PostModern Culture”, Pluto Press, 1983). Aqui, o sociólogo francês começa por declarar a ruptura com a sua obra anterior, por via da constatação da sua falta de aderência ao mundo presente: “Já não existe qualquer sistema dos objectos.” Depois, ele analisa um novo estado das coisas: esta é a era da obscenidade e do êxtase da comunicação. O jogo entre a lógica fantasmática que a sua exegese herdou da psicanálise e da crítica do objecto enquanto facto palpável pendeu definitivamente para a primeira. Os antes omnipresentes dispositivos dos dramas humanos, a cena e o espelho, já não são necessários: o ecrã é o símile que melhor nos devolve a passividade absoluta do novo sujeito. Limitando-se ao seu papel de nodo de “redes de influência” que o ultrapassam, condenando à obsolescência o exibicionismo, destronado pelo narcisismo.
Como no ensaio de “Simulacros e Simulações” dedicado ao romance de J.G. Ballard, “Crash”, e seguindo os passos de Roland Barthes, Baudrillard elege aqui o automóvel como caso exemplar: “Acabaram as fantasias de posse, velocidade e apropriação, ligadas ao objecto em si, em vez delas uma táctica de potencialidades ligadas a ouso: domínio, controlo e comando, uma optimização do jogo de possibilidades oferecidas pelo automóvel como vector e veículo, não mais como santuário psicológico”.
O que antes era projectado psicologicamente, como cena metafórica e mental, é agora projectado na realidade, sem qualquer metáfora, no espaço absoluto da simulação.
De acordo com Baudrillard, as mutações decisivas no nosso relacionamento com os objectos provêm de três vectores: a cada vez mais forte abstracção operativa e formal de elementos e funções e a sua homogeneização em processos autónomos de funcionalidade; a deslocalização dos esforços e movimentos corporais para comandos electrónicos; a miniaturização crescente, no tempo e no espaço, do processos que têm a sua real cena em dimensões miniaturais: “só restam efeitos concentrados, miniaturizados e imediatamente disponíveis”. Assim, o corpo, a paisagem, o tempo e até o espaço público, tudo desaparece enquanto cena: tudo abre caminho à invasão por parte de agressivas criaturas audiovisuais como a publicidade.
Não é assim de admirar que o ensaio encerre com um diagnóstico sombrio: “fica assim desprovido de qualquer cena, aberto a tudo mesmo contra a sua vontade, vivendo na maior confusão. Ele mesmo é obsceno, a presa obscena da obscenidade do mundo. O que o caracteriza é menos a perda do real, os anos-luz de afastamento do mundo objectivo, o pathos da distância e da separação radical, como é por norma dito: mas, muito pelo contrário, a proximidade absoluta, a total instantaneidade das coisas, o sentimento de não ter defesa, nenhuma retirada. É o fim da interioridade e da intimidade, a sobreexposição e transparência do mundo que o atravessa sem obstáculos. Ele já não consegue produzir os limites do seu ser, já não pode encenar-se ou representar-se, já não se consegue produzir como espelho. É agora um puro ecrã, um centro de comutação para todas as redes de influência.”
A abertura vulnerável às potentes representações da realidade encenadas por outrem; que melhor metáfora para a condição do espectador que absorve, sem sequer poder erigir defesas, o mundo hiperreal que lhe chega através da televisão?
É verdade que esta imagem se destinava a servir de contraponto à ideia clássica de esquizofrenia: a distância irremediável e trágica que separa o doente do seu mundo, a alienação mental a assumir valor literal. Mas é, mesmo nesta antinomia, o perfeito descritivo da passagem do mundo moderno ao universo pós-moderno: a alienação já não surge do afastamento do real, mas sim de excessiva proximidade, de falta de fronteiras operativas.

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publicado por Luis Rainha às 01:07
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