Sexta-feira, 9 de Março de 2007
Pinóquio vs. Shrek


Graças à minha provecta idade, tive ocasião de crescer na companhia de sucessivos heróis de desenhos animados, por norma saídos das fábricas da Disney. Muito já tinham décadas quando eu nasci, outros eram novidades; mas todos voltavam ciclicamente ao velho cinema do meu bairro.  
Hoje, tais obras já não são, a bem da verdade, “desenhos”, mas são por certo bem mais animadas: falo das catadupas de filmes em 3D que os processadores da Pixar e afins vão “renderizando” com uma velocidade assombrosa. As crianças de hoje talvez já nem sejam capazes de prestar grande atenção aos universos foscos e à limitada agitação do cinema animado tradicional: o meu rebento de 3 anos não lhe concede sequer a graça mínima da curiosidade.
Mas julgo que algo mais mudou com a passagem das cenas pacientemente intercaladas para os planos tão detalhados e complexos das aventuras geradas por computador. Houve uma mudança de paradigma, uma rotação suave mas tenaz no posicionamento ideológico das fábulas catódicas com que embalamos as nossas crianças.
Uma legião de heróis, do Pinóquio, à sereia Ariel, lutou, durante a sua hora e meia de glória, pela integração num modelo dominante de normalidade. Pinóquio queria migrar da madeira para a carne; Ariel desejava largar as escamas e ascender ao mundo da superfície; Cinderella suspirava pela escalada social da cozinha para o salão de baile; a Bela lutou para fazer do seu Monstro gente, etc, etc. Esta ânsia de mimesis do Outro, de aderência à norma, levava sempre ao mesmo clímax: o momento da Transformação. O ponto alto do arco de todas estas histórias é a sequência em que tudo se vê invadido por uma cegante luz branca e cânticos celestiais. Fosse por intervenção das proverbiais fadas ou simplesmente pelo anular de maldições arcanas, todos os heróis conseguiam metamorfosear-se no seu ideal de normalidade: o “menino de verdade”, a cortesã elegante, o belo príncipe, o menino da selva que regressa à aldeia... a lista é quase infindável.
E o que aconteceu ao mais notório herói da nova geração digital, o verde ogre Shrek? O primeiro filme, de 2001, levava-nos ao engano: quando tudo fazia crer que o culminar da narrativa incluiria a passagem permanente da princesa Fiona para o reino dos normais, ela acaba por decidir que será mais feliz como monstro. A segunda prestação da saga mostra-nos o casal de ogres, em conjunto, a virar costas a essa normalidade antes desejável. E eis a “mensagem” central de tantos destes filmes recentes: importa hoje não aderir à norma mas sim aceitar as nossas diferenças e erigi-las como novo e orgulhoso pilar da nossa identidade.
Nada há de errado com a monstruosidade; esta é apenas mais um ponto de vista sobre a vida — eis a moral clara do êxito “Monsters Inc”, de 2001. Mesmo o profético e pioneiro “Toy Story”, de 1999, já nos apresentava uma outra reivindicação de paridade: os brinquedos têm tanta autonomia e vontade como os seres humanos e, num episodio revelador, os bonecos “diferentes”, vistos primeiro como ameaças sinistras, revelam-se “bons” e acabam por organizar uma assustadora manif para impor respeito ao seu sádico dono.
Esta translação de um sonho de “direito à igualdade” para o domínio do “direito à diferença” é a marca de inúmeros sucessos entre a pequenada: o pombo Valiant é minúsculo mas impõe-se como herói de guerra; Nemo tem uma barbatana atrofiada; o tubarão vegetariano Lenny é patentemente gay; Timão é um desastrado que sai da sua colónia para encontrar a felicidade e a relevância em simbiose (um eufemismo...) com o igualmente proscrito Pumba. Em “Robots” encontramos uma transparente explicitação da tendência: os heróis são ferrugentos pedaços de lixo adiado resistindo contra a obrigatoriedade dos upgrades. Todos recusaram perseguir a normalidade; todos acabaram por impor as suas idiossincrasias como peças-chave dos seus destinos fadados à glória.
Assim de repente, só me lembro, entre os recentes astros digitais, do protagonista de “Cars”, empenhado numa odisseia clássica de auto-descoberta e aperfeiçoamento espiritual. Não surpreendentemente, acabou por perder o Oscar para um herói muito mais sintonizado com o air du temps: o pinguim Mambo, o aleijão incapaz de cantar e sapateador compulsivo, que transforma a sua “diferença” num factor salvífico para toda a sua raça. Alguém que vive nos antípodas do esforçado Pinóquio, sempre pronto a ultrapassar provas que lhe dessem direito a entrar na Humanidade.
É como se antes a indústria do entretenimento sussurrasse aos nossos filhos algo como “esforça-te e vence a adversidade que algum poder superior, sejam as fadas ou Deus, há-de tornar-te mais semelhante ao Outro”; hoje, a lengalenga é “esforça-te por te reconciliar com a tua adversidade, que o Outro vai acabar por reconhecer o teu valor único.” Como mudança, não me parece nada mal.
Atenção, que a ideia não é tentar descortinar por aqui uma qualquer conspiração de lóbis encapotados (se calhar com David Geffen no papel de Anti-Cristo). Julgo sim interessante farejar as grandes correntes que fluem sob a nossa cultura e que por vezes vêm à tona nestes pequenos mas reveladores epifenómenos. Além de que é conveniente fiscalizar de quando em vez a dieta mental com que alimentamos as tenras moleirinhas dos nossos herdeiros.

E uma questão permanece, sempre a mesma, aliás: será o desejo do público que cria a tendência ou é a estratégia calculada de quem detém o poder cultural que guia estes ligeiros, mas talvez ponderosos, terramotos culturais?


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publicado por Luis Rainha às 10:49
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