Segunda-feira, 19 de Março de 2007
A noite do morto vivo 31
Santana Lopes anda por aí de novo a murmurar coisas como "se eu olhar à minha volta e chegar à conclusão sou eu que estou melhor colocado para assumir a responsabilidade da liderança do meu partido, não fujo". Imaginar PSL de novo a "liderar" o PSD é sonho lindo só comparável a ter o popular e telegénico "Emplastro" como treinador o FCP.
Ainda mais cómica é a passagem em que o meu zombi preferido garante ter "uma vida profissional para consolidar e que me custou a reconstruir". Que andará o homem a fazer, dado que a notícia que o colocava na EDP como assessor jurídico parece não ter fundamento? Deita búzios? Tira fotografias comprometedoras à Elsa Raposo? Apascenta jumentos? Confesso-me roído pela curiosidade.


publicado por Luis Rainha às 11:53
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Domingo, 18 de Março de 2007
Um engenheiro debaixo de cada pedra
Com o agudizar da polémica em torno do possível aeroporto da Ota, Portugal é bendito pelo surgimento de uma riqueza humana inesperada: os especialistas em transportes. Crescem como cogumelos. Alguns em paragens inéditas, a maioria nos locais do costume. Miguel Sousa Tavares, infalível doutor em tudo e mais um par de botas, declara-se hoje, no “Expresso” majestaticamente “à espera” que o convençam não sei bem de quê; como se a sua teimosia ou ignorância pudesse ser prova de ausência de argumentos ponderosos. A caprichosa Clara Ferreira Alves sempre é mais directa: dá-nos logo uma pista sobre o quanto entende realmente do assunto, ao escrever que hoje em dia “se demora de Lisboa ao Porto mais ou menos o que se demorava há 20 anos”. Tendo em vista que a A1 apenas foi finalizada em 1991, ficamos conversados. A não ser que a plumitiva se referisse a travessias a pé. Aí, é capaz de ter razão; ao menos uma vez na vida.

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publicado por Luis Rainha às 02:20
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O "nosso ilustre candidato" e os mexilhões


Para uma mente brilhante do blogue que quer "voltar a crescer" sob as saias de Paulo Portas, este é mesmo "o nosso ilustre candidato". A sério.
Mais: o fulano pensa que "o eleitorado que não é de esquerda deve incrustar-se no CDS-PP". "Incrustar-se", estão a ver? Assim como os mexilhões se agarram às rochas, ou as carraças à pele do meu pobre collie. Só de imaginar alguém "incrustado" no antigo Paulinho das Feiras, fico bastante indisposto.
Mas atenção, que há muitos mais motivos de gáudio a fazer do local uma referência obrigatória: um dos autores "destes mágnifico Blog" (sic, a sério!) é um tal Jorge Passeira, criatura que nos lança a todos um solene aviso: "quanto áqueles que fazem crítica, troça e tentam por meios obscuros de nos travarem a levar o DR.Paulo Portas á vitória, só tenho a dizer (...como já disse recentemente em outras circusntâncias) que não teram hipótesse pois a vitória estará do lado da razão!" Em termos de delírio político-ortográfico e de exercício insalubre de culto da personalidade, a coisa é mesmo do melhor.
A bem da verdade, agora que penso bem no assunto, este "mágnifico Blog" só pode ser obra ou do Gato Fedorento ou dos apoiantes do Ribeiro e Castro.

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publicado por Luis Rainha às 00:04
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Sábado, 17 de Março de 2007
Living in the past
Acreditem ou não, existe um blogue chamado "uma nova esperança para o CDS/PP", sendo que a tal novidade anunciada com este espavento é... Paulo Portas. Não se trata de um homónimo, mas sim de quem já lá esteve a mandar naquilo uma data de anos. Com os resultados conhecidos.
Ao que parece, lendo o endereço da coisa, estava para se chamar "Voltar a Crescer" mas devem ter pensado que evocava em demasia temas ligados à infância; ou que talvez recordasse aos mais rancorosos as últimas eleições, altura em que o crescimento foi estonteante. Por más razões.

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publicado por Luis Rainha às 20:57
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Sábado, 10 de Março de 2007
A direita em queda livre
O que diz um passageiro de um avião que ainda há uns segundos mergulhava para o solo de motores parados, quando um piloto por fim consegue estabilizar o bicho? Viva? Ná. Malta como o Miguel Castelo-Branco (no relation, I hope) virar-se-ia para os restantes passageiros com um remoque cortante: "olhem que o avião está a subir de forma medíocre". Deviam ter continuado com o Santana aos comandos para verem o que é uma queda livre a sério.

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publicado por Luis Rainha às 16:20
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Quinta-feira, 1 de Março de 2007
O messianismo, assim visto de perto, é bem feio
Luís Nobre Guedes afirma a pés juntos que o regresso de Paulo Portas é movido pela generosidade, pelo altruísmo. Já o acólito Nuno Melo nesta parola Parúsia "um sinal de esperança".
Viver à sombra dos "Grandes Homens", aqui ou na Coreia do Norte, tem o seu preço. Que começa por ser pago em ridículo. Mas as recompensas são sempre abundantes para os sem-espinha.

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publicado por Luis Rainha às 22:48
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Amaralices
Luciano Amaral já nos tinha tentado provar que os votos do “Sim” no referendo à IVG provinham de malta ultramontana, passadista e pouco recomendável. Fê-lo ventilando uma historieta de faca e alguidar sobre Valentim Loureiro e os seus rebentos extra-conjugais. O major representaria assim na perfeição todos os votantes do “Sim”. Um disparate pegado em prosa nada recomendável.
Hoje, o “cronista” do DN vem dar-nos mais uma prédica sobre o seu tema favorito: os defeitos da esquerda. Nada de estranho: anormal seria que ele se dedicasse antes a explanar-nos as suas originais e profícuas ideias. Mas, à falta destas , lá vem a criatura de novo ao ataque com as maleitas dos canhotos.
Primeiro, fala de uma suposta reverência que a “malta” dedicaria ao ogre Putin. Isto porque ele, segundo o bom Luciano, patrocina todos os eixos dos males do mundo, do Irão ao horrendo Chávez. Isto a propósito da irritação com que o czar das Rússias recebeu a notícia da instalação de sistemas anti-míssil na Europa oriental. É evidente, para o Luciano, que a “Rússia tenha historicamente entendido, sempre que pôde, a Europa central como seu backyard, e que isso não pareça uma perspectiva agradável aos países da área”. Além da deliciosa palavrita estrangeira, outro espanto avulta: então os EUA não assumiram irritação bem maior quando a URSS quis instalar mísseis em Cuba, há umas décadas? Mas, claro está, perguntar isto deve ser sinal da tal “mania de abominar a América”. De seguida, o raspanete dirige-se ao ministro alemão que tentou apaziguar o vizinho colérico; ignorando, por exemplo, que muita gente na Europa depende do gás natural que daquelas bandas vai ainda chegando, o que talvez convide a alguma ponderação...
Depois de tecer umas banalidades superficiais sobre a recente crise política italiana, o Luciano volta ao alvo preferido: “A mundividência da esquerda era a escatologia laica que prometia o fim do repugnante capitalismo e a sua substituição pela abundância e a felicidade ecuménicas. Depois de desfeito o mito comunista, há quase 20 anos, e agora que começa a desfazer-se o mito social-democrata, pouco mais resta do que os tiques e as manias.”
A bem da verdade, o homem rebola-se de alegria ante uma alucinada visão das sociais-democracias nórdicas em ruínas. Ficamos é sem perceber onde é que esta nova visão do “fim da história” desagua: afinal, que regime, que país, que sistema social, agradam ao raivoso Luciano? Onde gostaria ele de ver os seus filhos a crescer: numa sociedade carente de qualquer espécie de solidariedade para com os mais fracos, ou num desses repugnantes antros do igualitarismo e do estado-providência como a Holanda ?
A fechar, mais uma crítica que se pode aplicar ao próprio plumitivo com toda a justeza: “A esquerda hoje não gosta muito do que existe, mas também não oferece um horizonte ulterior.” E tu, Luciano, qual será o teu horizonte para lá dos mercados livres?


publicado por Luis Rainha às 15:36
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Quarta-feira, 28 de Fevereiro de 2007
Um diagnóstico para o DN
Se quiserem saber porque já ninguém compra ou lê o DN, estando este remetido ao fruste papel de embrulho das maravilhas governativas, podem ler a última crónica de Vasco Graça Moura. Um excerto: "É evidente que a oposição não olha a meios e põe sistematicamente os seus interesses à frente dos interesses de Lisboa. E também é evidente que o presidente da câmara faz exactamente o contrário". Outro: "O que está em causa é aniquilar a maioria do PSD, dê lá por onde der!" Assim mesmo. Ignorando escândalos, dissimulações, acusações entre laranjinhas e entre estes e a vereadora centrista, etc, etc, etc. Não: quem está mal é mesmo a oposição.
Enquanto persistir em vender como "opinião" estes fretes mal amanhados, estas cuspidelas partidárias sem tino nem graça, não há jornal que sobreviva.

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publicado por Luis Rainha às 20:24
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Segunda-feira, 26 de Fevereiro de 2007
Dois anos de Sócrates

O infindo “estado de graça” de Sócrates deve muito à fasquia com que deparou: suceder ao governo mais caricato e incapaz que alguma vez afligiu Portugal. Bastava ao líder do executivo não se babar em público e aos ministros não serem apanhados em casos amorosos com ovinos para fazerem boa figura. Coisa que têm conseguido, até ver.

De resto, fica a ideia de que as reformas levadas a cabo têm tanto de cuidadosa gestão do calendário político e de relações públicas como de acção real. Enfim, talvez o melhor governo que podemos almejar seja mesmo assim: pouco faz mas consegue transmitir aos agentes económicos a ideia de que o país avança. O que está longe de ser mau de todo.



publicado por Luis Rainha às 11:03
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Mais um bailinho da Madeira
Por meios inconfessáveis, tive acesso a uma escuta de uma conversa telefónica entre o rotundo líder do PSD-Madeira e Marques Mendes. A bem da Nação, aqui fica:

—    Foi o referendo, a Câmara de Lisboa... para onde quer que me vire, é só desgraças.
—    Sim, sim...
—    E no partido, a cada dia, lá aparece mais um à gosma: o cromo de Gaia, os abutres do costume e agora até o gajo da Opus Dei. Acha que isto é vida?
—    Ó Dr. Mendes, mas que tenho eu a ver com as suas desgraças?
—    Caro Dr. Alberto João: eu, modéstia à parte, tenho a proposta que vai resolver todos os problemas do partido. É assim: você demite-se.
—    O quê??
—     Calma. Há eleições, você faz-se de vítima, acusa o governo e ganha como sempre. A imprensa daqui fica uns meses com assunto e deixa de me chatear. Fale em testículos, nos colonialistas, ameace com a independência, o costume. Entretenha-os. E dê-nos uma vitória, que bem precisamos.
—    Mas que ganho eu com isso?
—    Então... não gostava de ter um cargo mais calmo, com montes de prestígio?
—    Caro que sim! E que fazem ao sô Silva?
—    Deixe comigo. Quando chegar a altura da reeleição, convenço-o a voltar à vida académica ou coisa que o valha. Agora, demita-se e trate de dar a volta à  sua malta. Enquanto essa eleição vai e vem, sempre folgam as minhas costas.



publicado por Luis Rainha às 11:00
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007
Da cegueira ao ódio
O André Abrantes Amaral já tinha dado umas voltas em torno do tema. Mas creio ter sido esta a primeira vez que ele deu corpo de letra, preto no branco, aos seus fantasmas: «vou ser claro: Ser membro do Partido Comunista é tão grave como ser membro de um partido ou organização nazi.»
Para simplificar, vou assumir que "grave", para o nosso amigo insurgente, quer dizer mais ou menos o mesmo que para a maioria dos dicionários. Portanto, ser militante do PCP será tão mau, em termos civilizacionais, de carácter e de cumplicidade com atrocidades várias, como ser membro das organizações nazis que andam por aí.
Para AAA, existe um poderoso Pecado Original a macular a alma de todos os que hoje fazem parte activa do PCP: o da cumplicidade com os crimes de Estaline e com um projecto que desaguou no totalitarismo. E esta mancha é mais desagradável e pestilenta do que a dos cúmplices do amigo Adolf, julga ele.
Ora é bom deixar claras algumas coisas: a esmagadora maioria dos militantes actuais do nosso bisonho Partido Comunista será culpada do pecado da ignorância voluntária. E pouco mais. Não vemos militantes destacados daquele partido a exigir reedições de gulags, a deportação para a tundra gelada dos capitalistas, purgas quinzenais, o extermínio do kulaks, etc. Vemos sim alguns idiotas com responsabilidades a clamar no “Avante!” que a queda da URSS foi consequência de um ataque capitalista à «mais brilhante conquista da história da humanidade». Isto é cegueira selectiva; não crime.
O bom AAA faz de conta (isto para não o chamar também “ignorante”) que não sabe o que são hoje os grupúsculos nazis em Portugal. Gente com fóruns onde se escrevem, para gáudio da boçal plateia, coisas como: «é a primeira vez que vejo um macaco maquilhado»; «Os pretos são mesmo feios, como é possível haver lá "misses"?!!»; «uma rapariga branca acompanhada por um preto, dar à luz uma baratita...». Que segue líderes capazes de proclamar «quero vê-los um dia no Julgamento por crimes contra a Humanidade, crimes estes contra a nossa raça e povo, e vou adorar vê-los pendurados a bailoçar por uma corda no Terreiro do Paço» e «com armas, e não são soqueiras, nem bastões de baseball que nos vão ajudar quando o inimigo sacar das armas de fogo que dispõe, aconselho os nacionalistas a comprarem armas (...) se o vosso registo criminal não o permitir, peçam em nome da vossa mulher, namorada, mãe ou pai... há sempre uma solução para tudo.»
Trata-se de malta que celebra os aniversários de Hitler, que julga viver num mundo secretamente comandado por judeus, que se quer ver livre de todos os imigrantes um pouco mais escuros, que acha que a Solução Final não foi final qb, que organiza manifestações (perfeitamente legais) seguidas de concertos de uma banda de “racial hatecore” chamada “Ódio”. Etc, etc.

AAA é tão voluntariamente cego como os comunistas que continuam saudosos da loucura burocratizada da URSS: para ele, é igual o militante comunista que se agarra ao seu sonho caduco de um mundo mais igualitário e o nazi que prega o ódio racial, a violência, o preconceito animalesco.
Mas olhe que há um mundo a separá-los caro AAA: uma coisa é fechar os olhos a crimes praticados há décadas, outra bem diversa é lutar para os repetir o mais depressa possível.



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publicado por Luis Rainha às 16:51
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Segunda-feira, 19 de Fevereiro de 2007
Vem aí o fim do mundo!
José António Saraiva, com a perspicácia do costume, acaba de profetizar desgraças mil para o nosso pobre Portugal: "A transposição da linha que separava a vida e a morte foi um passo tremendo. Porque legitimou todas as intervenções: a vida no útero pode ser interrompida, os vivos poderão ser mortos antes de morrerem, o suicídio é tolerado, a pena de morte poderá voltar a ser discutida, quem sabe?Abriu-se, como atrás se disse, uma ‘caixa de Pandora’. A caixa da morte."
Mas claro. Então não se está mesmo a ver que éramos o único país civilizado num mundo entregue à barbárie e à carnagem desbragada? Que vai ser de nós agora?


publicado por Luis Rainha às 11:30
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O Estado Nuclear
O PS talvez ande mesmo a congeminar a restrição das “funções nucleares” do Estado à defesa, segurança e diplomacia. Não sei se por deriva liberal ou se apenas para diminuir o número de vínculos à função pública. Sei é que a UNICEF acaba de publicar um relatório que analisa o bem-estar das crianças dos países da OCDE. E não são os mais ricos a cuidar melhor dos seus jovens. Este honroso destaque cabe sim a nações como a Holanda, a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia. Gente que não se importa de ter estados com imensas “funções nucleares”. Mas que cuidam do que é mesmo importante.


publicado por Luis Rainha às 11:07
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Domingo, 18 de Fevereiro de 2007
Fé na Ideologia
 

 

Antony Gormley, Present Time, 1986

Através dos bons ofícios do Nuno Ramos de Almeida, dei por um interessante post do João Galamba em que se cartografam as zonas de coalescência entre ideologia e religião. Interpela-nos assim JG: “Haverá algum tipo de esperança que evite a lógica da promessa religiosa? Ou será que todas as narrativas políticas contém necessariamente um elemento de religiosidade?”
O Nuno tratou de defender a sua dama desta “vil” acusação, tentando separar a crença marxista num mundo melhor que há-de vir da corriqueira alienação religiosa; evocando alguns episódios edificantes sem atacar o princípio da coisa. Mas até o irredutível žižequiano acaba por admitir alguma dúvida: “a intenção de Marx não está despojada de uma vontade romântica e prometeica de salvar a humanidade das grilhetas da opressão.”
O sempre alerta Gibel comenta que “Benjamin, como Landauer, Bloch, Isaac Deustcher ou Lukács, revêem-se todos numa tentativa de construir um messianismo laico, Reino de Deus sem Deus, em que o proletariado surge enquanto classe-messias numa humanidade que se encaminha para o fim da opressão”.
Por seu turno, e ainda no Metablogue, Ezequiel (presumo que não se trate do profeta) recentra o problema: “Todos as narrativas politicas contem, sem duvida, uma teologia ‘futural’, uma relaçao inevitavel com a temporalidade.”
Precisamente. E mais: esse ponto de comunhão com o sentimento religioso nem sequer é exclusivo da postura ideologizante. Claro que um edifício conceptual que tem por objectivo melhorar o mundo não pode deixar de se propagar pela esperança dos crentes; mas outros sectores do pensamento humano partilham este dispositivo. Que, aliás, está longe de ser o verdadeiro centro da maioria das religiões.
Vejamos: na interpretação de S. Agostinho, “Religião” é termo com raízes no verbo ligare. Implicando a re-ligação ao Divino, não uma qualquer urgência de amanhãs gloriosos. Uma religião pode acarretar, na sua liturgia ou na sua praxis, a tal “futuralidade”, a promessa do momento de redenção em que os fiéis são recompensados pela sua lealdade e o  Bem triunfa por fim sobre o Mal. Mas trata-se, ao fim e ao cabo, de um traço humano inevitável e banal: a esperança no destino, a vontade de melhorar a vida, a crença num devir radioso... tudo isto estará presente num monge beneditino, no ateu empedernido, no jogador do Euromilhões ou até no mais iludido adepto do Benfica. Para todos, o dia dos dias está mesmo ao virar da esquina. E não precisam da ajuda de Marx para acalentar mais sonhos.
A exaltação de um tempo que há-de vir, o diferimento da esperança, a crença num preferível estado das coisas que chegará mais depressa se a devoção for grande... estas são atitudes correntes dentro dos redis das religiões ocidentais. Mas, sendo comuns no comportamento religioso, são apenas epifenómenos, sintomas de um quadro mental alargado, nunca a sua essência. Por sinal, religiões há que até as dispensam: a crença na reencarnação, por exemplo, anula muitos desses valores, ao remeter a solução de todas as atribulações para uma outra vida, determinada pelo nosso comportamento nesta e não pela chegada de mais um Messias — e, como estas coisas andam todas ligadas, tende a dar espaço a sistemas sociais articulados sobre castas impermeáveis, pois a presente situação de cada indivíduo é sua culpa, não cabendo à sociedade remediá-la.
Em suma, o Marxismo terá em comum com o Judaísmo (só por exemplo), não um "um elemento de religiosidade" mas apenas o apelo a traços básicos da psique humana: querer fugir ao desespero de um universo sem sentido, sem evolução teleológica, sem promessa de sentido.

Depois, a citação de Herkenhoff que o Gibel trouxe à colação — “O mito ilude o homem e retarda a História. A utopia alimenta o projecto de luta e faz a História” — dá-nos uma boa rota para entender as diferenças operacionais de um e outro sistema, aplicados à vida dos seus crentes. A Religião comporta-se, no nosso tranquilo Ocidente, como uma força inercial que tende a opor-se à mudança que outros ramos do pensamento disseminam; mas não devemos esquecer que talvez o Cristianismo tenha nascido como um movimento revolucionário, de luta contra a globalização romana. Nem que o mundo islâmico hoje se transforma (para pior, parece-me) com a religião na vanguarda. Mas essas são contas para futuro rosário.


PS: nada disto, claro, invalida que a propaganda do PCP ou o discurso de muitos liberais se assemelhem, e muito, às prédicas da Igreja do Reino de Deus: acreditar em coisas inacreditáveis sem requerer amostra de prova sempre teve os seus riscos... o que nos vale é que, segundo o santo mito, o Socialismo é mesmo inevitável.


publicado por Luis Rainha às 12:33
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Segunda-feira, 29 de Janeiro de 2007
Câmara oculta
Lisboa anda fazer figura de vilarejo siciliano. O desfile de suspeitas e investigações policiais ao conúbio entre a CML e a Bragaparques já aflora o obsceno: avaliações fantasiosas, permutas desproporcionais, um vereador aliciado, uma sua colega arguida, reuniões bizarras do presidente com o principal suspeito e, agora, assaltos à casa e ao escritório de Ricardo Sá Fernandes. Mas o pior ainda deve estar para vir: se ofereceram ao edil do Bloco 200 mil euros só para não fazer ondas, quanto não terá rendido a venalidade a sério?


publicado por Luis Rainha às 16:08
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Sábado, 27 de Janeiro de 2007
O estranho mundo de Marques Mendes
Ouvi há pouco o ainda líder do PSD em entrevista à TSF. E fiquei com a distinta ideia de que ele se queixou do sistema eleitoral vigente, que teria impedido uma "maior governabilidade" da Câmara de Lisboa. Como se a presente pouca-vergonha tivesse resultado de um qualquer bloqueio da oposição. Como se a vereação PSD tivesse precisado de ajuda para se enterrar neste escândalo já há tanto anunciado (excepto a ajuda da Bragaparques, claro está).

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publicado por Luis Rainha às 12:27
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Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007
É da minha vista...
... ou ontem o Luís Delgado esteve na SIC Notícias a comentar a crise da CML, explicando-nos que o problema era a atitude do vereador Sá Fernandes, mais a sua mania de questionar tudo? Com o Titanic a caminho do abismo, ainda há quem diga que a culpa é de quem se atreve a fiscalizar os desígnios do sapiente comandante e sua equipa. Se calhar, foi o vereador do BE quem lá deixou o maldito iceberg.

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publicado por Luis Rainha às 16:03
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